NÓTULANotícias · Curadoria Global Assine
Mundo · Geopolítica

Guerra entre Israel e Irã incendeia o petróleo — e o Brasil sente no bolso

Nova escalada com ataques a Teerã, Tabriz e Isfahan pressiona o preço do barril e reforça o temor de gasolina mais cara e inflação em alta no país

Refinaria de petróleo iluminada ao entardecer
Conflito no Oriente Médio pressiona o preço do petróleo e chega ao Brasil.

A escalada militar entre Israel e Irã voltou ao centro das atenções globais em junho de 2026 — e seus efeitos não ficam confinados ao Oriente Médio. A cada novo ataque, o preço do petróleo oscila, e essa oscilação chega ao Brasil pela bomba de combustível e pela inflação. Para o consumidor brasileiro, a pergunta é direta: quanto essa guerra distante pode custar no abastecimento do carro e no supermercado?

O estopim mais recente veio na primeira semana do mês. Depois de o Irã disparar uma onda de mísseis contra o norte de Israel, as forças israelenses responderam com ataques em território iraniano, e explosões foram registradas em Teerã, Tabriz, Karaj e Isfahan. Segundo a Reuters, trata-se da escalada mais grave desde a trégua mediada pelos Estados Unidos em abril. O Irã acusa Israel de violar repetidamente o cessar-fogo com operações no Líbano; Israel afirma mirar o grupo Hezbollah.

Por que o mercado de petróleo reage a cada disparo

O Oriente Médio concentra parte decisiva da produção mundial de petróleo, e o temor de fundo é sempre o mesmo: o Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta. Teerã já ameaçou bloquear a passagem e abrir outras frentes, como o Estreito de Bab el-Mandeb. Qualquer sinal de que esses corredores possam fechar faz o preço disparar de imediato.

Bomba de combustível em posto de gasolina
Alta do barril tende a chegar ao consumidor pela bomba.

O comportamento do barril ao longo da crise ilustra essa sensibilidade. Conforme noticiou a imprensa internacional, o Brent saltou de cerca de US$ 72 antes do conflito para perto de US$ 120 no auge das tensões — uma alta superior a 50%. Em um dos episódios recentes, o contrato avançou mais de 4% em um único pregão, fechando perto de US$ 95. Já diante de sinais de acordo de paz e de aumento de oferta, chegou a recuar para a faixa de US$ 78 a US$ 79, mínima de três meses. Em resumo: enquanto a guerra não tem desfecho claro, o preço vai e volta a cada manchete.

O caminho até a bomba no Brasil

O Brasil produz boa parte do petróleo que consome, mas não está isolado do mercado internacional. A Petrobras usa o preço externo como referência, e há ainda o câmbio no meio do caminho: como o barril é cotado em dólar, um real mais fraco encarece o produto importado e os derivados. É a combinação entre barril caro e dólar pressionado que tende a empurrar gasolina e diesel para cima.

Barris de petróleo cru enfileirados
Brent oscilou de US$ 72 a quase US$ 120 durante a crise.

Esse mecanismo já aparece nas contas oficiais. Segundo a Agência Brasil, a Secretaria de Política Econômica (SPE) elevou a estimativa do preço médio do petróleo para US$ 73,09 por barril em 2026, contra os US$ 65,97 previstos antes — alta de cerca de 10,8%. O governo afirmou que a revisão reflete "principalmente o impacto do aumento do preço do petróleo no mercado internacional, que elevou as projeções de custos de combustíveis no Brasil".

Cada 1% de alta no preço do petróleo pode acrescentar 0,02 ponto percentual ao IPCA, segundo a sensibilidade calculada pela equipe econômica — um efeito que, somado, ajuda a explicar a pressão sobre a inflação de 2026.

Inflação no radar e a resposta do governo

A inflação brasileira já dá sinais de pressão. O IPCA-15, prévia oficial, subiu 0,62% em maio, puxado por alimentos e energia, conforme noticiou a imprensa econômica. As projeções para o fechamento do ano foram revisadas para cima, e a pesquisa Focus, do Banco Central, chegou a apontar IPCA próximo de 5% em 2026 — acima do esperado meses atrás. O risco apontado por analistas é que a pressão, iniciada na energia, contamine outros setores.

Tela de mercado financeiro com cotações
Mercado reage a cada manchete sobre a guerra.

Para conter o repasse aos combustíveis, o governo federal recorreu a medidas como a desoneração de PIS/Cofins sobre o diesel e um subsídio que, na prática, segurou parte do aumento. A Petrobras chegou a anunciar redução no preço do diesel às distribuidoras no início de junho, em meio a esse pacote. Ainda assim, o desfecho da gasolina e da inflação depende menos de Brasília e mais do que acontecer entre Teerã e Tel Aviv: um cessar-fogo durável aliviaria o barril; uma nova escalada faria o oposto. Por ora, com apelos de paz de um lado e mísseis do outro, o consumidor brasileiro segue refém de uma guerra que começa a milhares de quilômetros — e termina no posto da esquina.

Com informações de: Reuters, BBC, Agência Brasil, CNBC, Al Jazeera e NPR.

Leia também